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Carnaval: É possível se divertir sem pecar?

A12 › 26/01/2018

Uma maneira caricaturada de pensar, comum para os que estão fora da Igreja, é a que enxerga no católico uma pessoa amargurada com a vida, reprimida por medo ou por um sentido do dever que obedece cegamente a normas e preceitos vazios. Nesse contexto, parece bem difícil falar que uma pessoa assim pode realmente se divertir, ainda mais quando divertimento nos dias de hoje parece ser dar rédea solta para os apetites e desejos. Chegando na época do carnaval, a coisa fica ainda mais evidente.

Pascal, pensador do século XVII, refletiu sobre o divertimento e como ele se mostra como um mecanismo para escapar de um contato mais profundo consigo mesmo. Ele diz em sua obra chamada pensamentos: “Nada é mais insuportável para o homem do que estar em pleno repouso, sem paixões, sem afazeres, sem divertimento, sem aplicação”. O homem aparece como um ser inquieto, que está sempre em busca de algo. Notemos que a palavra utilizada é “insuportável”, ou seja, é impossível, segundo Pascal, que o homem não esteja em busca de algo.

Se estamos sempre buscando algo e não sabemos bem o que procuramos, é porque não sabemos bem quem somos. E Pascal também se atém a esse ponto. Ele diz que mesmo se nos permitimos entrar em nosso interior e descobrir quem realmente somos, cairíamos novamente no tédio e na fuga para o divertimento. Isso acontece pois quando nos conhecemos, conhecemos também a nossa condição de pecadores, a nossa miséria, as nossas falhas. E isso é algo que não é fácil de assimilar. Por isso, ao ver tudo o que somos, escaparíamos de novo ao divertimento.

No carnaval não é difícil identificar nos outros e, com um pouco de honestidade, em si mesmo, as motivações do divertimento. É uma fuga dos problemas do dia a dia? É uma fuga da própria identidade? É uma fuga das incertezas de nossas decisões? É a fuga de um relacionamento que não está dando certo? De um diálogo que não se está tendo? Podem ser muitas coisas que nos atraem para o divertimento e cada um precisa fazer um exame do momento em que vive. Para Pascal, o divertimento nos atrapalha a fazer essas perguntas realmente importantes para o homem.

Seria, então, todo divertimento um desvio? Como ser um católico alegre como nos pede tanto o Papa Francisco?Aqui temos que deixar um pouco Pascal de lado e afirmar que junto a nossa grande miséria, a nossa condição de pecadores, ao descobrir a nossa identidade, descobrimos que Deus nos ama a tal ponto de nos dar o seu Filho único em expiação pelos nossos pecados. Ou seja, somos realmente pecadores, mas se estamos em comunhão com Deus, vivendo uma vida de Graça, somos pecadores perdoados, e esse é um motivo muito grande de alegria. Na verdade, é o maior motivo que podemos pensar para estarmos alegres. E é isso que festejamos, que celebramos, que nos dá a alegria de viver.

É claro que um católico pode se divertir sem pecar. Sempre que esteja afirmando a sua identidade de filho amado e reconciliado por Deus. Uma grande dificuldade de hoje é que até mesmo nós, católicos, queremos nos alegrar com outras coisas, nos assemelhar demais ao mundo a ponto de nos mesclar com o mundano. É preciso sempre lembrar que estamos no mundo, mas não somos do mundo.

“Alegrai-vos sempre no Senhor. Repito: alegrai-vos!” (Fl 4,4) É o convite de São Paulo para os filipenses e para nós também. As duas partes da frase são importantes, alegrai-vos e no Senhor. Porque fora dele não há verdadeira alegria, só euforia passageira.

(Ir. João Antônio Johas)

Por A12

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