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Aborto, o “antissacramento”

Padre Paulo Ricardo › 14/08/2018

Se os sacramentos existem para trazer vida aos homens, o aborto é o “antissacramento” por excelência, pois impede o ser humano não nascido de vir à luz, tanto natural quanto sobrenaturalmente.

Em 1997, em uma livraria, deparei com uma obra que me impactou e deixou horrorizado. Uma teóloga feminista havia escrito um livro no qual argumentava que as duas grandes “cruzes” que as mulheres católicas tinham de carregar eram — você já pode suspeitar — a oposição da Igreja à ordenação de mulheres e ao aborto. Eu mal podia acreditar que o pecado de blasfêmia pudesse chegar a tal nível, mas aquilo estava ali, diante dos meus olhos, e não era um pesadelo.

Não muito tempo depois, alguém me falou de uma mulher no Canadá que se referia ao aborto como algo “sacramental”. O abuso linguístico não é nada menos que luciferino. Na verdade, não pode haver nada de sagrado ou santificante no pecado, na destruição da vida e na autodestruição, assim como não pode haver nada de belo no demônio depois de sua rebelião. Os sacramentos existem para trazer vida aos homens. O aborto, por sua vez, deve ser chamado mais propriamente de o “antissacramento” por excelência, já que priva o ser humano não nascido da oportunidade de vir à luz, tanto natural quanto sobrenaturalmente.

O crime de extinguir e descartar um filho é o fundo do poço, o declínio completo da vida e da existência.

“O demônio é o macaco de Deus”, diz um provérbio antigo. O demônio realmente tem uma religião organizada — organizada pelo menos a ponto de trazer os inimigos de Cristo para dentro das mais rígidas e eficientes estruturas políticas, psicológicas e culturais que ele é capaz de inventar com sua inteligência sobre-humana. Tudo o que é feito pela Igreja Católica é parodiado pela “igreja” do diabo, e nessa paródia nós encontramos uma explicação para as blasfêmias das pessoas mencionadas acima, cujo uso das palavras “cruz” e “sacramento” constitui nada menos do que um ataque frontal à própria santidade e misericórdia divinas.

O único modo de se afastar da infinita misericórdia de Deus é afrontando-a diretamente: “Em verdade, vos digo: tudo será perdoado às pessoas, tanto os pecados como as blasfêmias que tiverem proferido. Aquele, porém, que blasfemar contra o Espírito Santo nunca será perdoado, mas será réu de um pecado eterno” (Mc 3, 28-29). Se as pessoas se arrependerem de seus pecados — quaisquer pecados! — e procurarem a misericórdia de Deus, Ele lhas dará, ainda que com uma justa punição, nesta vida ou na outra. Mas se as pessoas ofenderem diretamente a divina misericórdia, demonstrada ou comunicada na ordem da criação e na ordem superior da redenção, e forem para seus túmulos nesse estado de rebelião contra o Espírito Santo, como Ele poderá ajudá-las? É justamente esse o dom rejeitado por tais pessoas.

As pessoas escolhem o inferno para si mesmas, eis a dura verdade; e eu acrescentaria que esse inferno é sempre fruto do próprio pecador. Sua prisão é sua mente, e sua punição é ficar aprisionado eternamente em seu “ego” obscurecido e transtornado. Só isso já é um inferno suficiente, antes mesmo de falarmos de chamas de fogo ou quaisquer dos tormentos magistralmente descritos no “Inferno” de Dante.

“O aborto corrompe tudo em que ele toca: a lei, a medicina e todo o conceito de direitos humanos.”

Eu costumo pensar no que C. S. Lewis diz em seu livro “O Grande Abismo”: o inferno é como um subúrbio onde as casas vão se distanciando cada vez mais, com aqueles que moram nelas se isolando e se isolando, à medida que o tempo passa. E não poderíamos associar essa imagem com a convicção de Ratzinger de que o inferno já está irrompendo em nosso mundo moderno, penetrando em suas rachaduras? Os subúrbios da terra, “livres” de crianças, evacuados pela contracepção e o aborto, são precursores dos subúrbios do Hades, “livres” de Deus, habitados pelo vazio.

O aborto é o crime de quem odeia radicalmente a si próprio e desesperou de um sentido para sua vida. Se as pessoas amassem quem são e enxergassem sentido em suas existências, acolheriam cada nova vida como uma continuação do que elas amam, uma confirmação do grande sentido que tem a vida, um prenúncio de esperança, um investimento no futuro.

O crime de extinguir e descartar um filho é o fundo do poço, o declínio completo da vida e da existência; é a morte do instinto social e do próprio coração humano, o suicídio do senso comum, o assassinato brutal da compaixão e da misericórdia, uma paródia doentia do verdadeiro amor. Visto dessa forma, é o pior ato possível, pois é como matar a inocência, a vida, Deus e o futuro, tudo de uma vez só. O aborto é, tanto literal quanto simbolicamente, o estágio final de decadência metafísica e perda de sentido.

Nós sabemos, a partir da teologia moral, que há alguns pecados piores em espécie do que o aborto — por exemplo, profanar a Santa Eucaristia ou cometer suicídio. Mas, como Santo Tomás costuma dizer, nada impede que um pecado seja o pior em certo sentido, ainda que não seja o pior absolutamente falando. Nenhum crime pode ser mais abominável do que o aborto em pelo menos um sentido: ele é totalmente contrário ao bem natural e fundamental da vida, bem como à afeição profundamente enraizada que os seres humanos nutrem para consigo, especialmente os inocentes e indefesos.

A “onipresença” do aborto no mundo moderno é um sinal das trevas espirituais extremas que se abateram sobre a humanidade.

Não pode haver nenhuma desculpa satisfatória para esse crime; todo o mundo sabe que uma mulher grávida é uma mulher com um filho; que o seu abdômen está arredondado porque uma criança está em seu ventre crescendo e se mexendo; que desde o momento da concepção está presente ali um novo ser humano, além da mulher. É impossível que uma pessoa em pleno uso de suas faculdades mentais não o saiba.

Tudo isso leva a uma conclusão assustadora: a “onipresença” do aborto no mundo moderno é um sinal das trevas espirituais extremas que se abateram sobre a humanidade, uma escuridão diferente de todas que a história jamais experimentou. Para o aborto ser “aceito” por uma pessoa (antes mesmo de ser escolhido), sua inteligência — sua alma inteira, na verdade — precisa se afastar da realidade, do autoconhecimento, do amor à vida, da humanidade básica — até mesmo do princípio da não-contradição e, com ele, da possibilidade do pensamento lógico.

Conflitos entre os homens são uma coisa: enquanto continuarmos sendo presas da avareza, da libido dominandi e do nacionalismo exacerbado, guerras serão incentivadas e alimentadas. Mas uma guerra tecnologicamente refinada e lucrativa contra crianças não nascidas? Não há nada mais depravado, nada mais profundamente contrário à própria natureza do homem. O aborto mina aquele amor aos filhos inscritos no coração humano e coloca em seu lugar uma negação vazia, uma negação assassina do ser; ele transforma um coração de carne em um coração de pedra.

É por isso que o Cardeal George Pell pôde dizer: “O aborto corrompe tudo em que ele toca: a lei, a medicina e todo o conceito de direitos humanos.” Isso ele faz por corromper primeiro o coração humano. É por isso que aqueles que realizam, aconselham ou passam por abortos precisam desesperadamente das nossas orações e penitências: não há nada de que eles tenham mais necessidade do que os sacramentos e a vida da graça, o perdão e a paz do Senhor.

Por Peter Kwasniewski, via Padre Paulo Ricardo

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