Entrevistas

Como o católico pode ser missionário?

Católico Digital › 27/10/2017

Padre Adriano em missão na Amazônia: “eu estava a passeio quando me chamaram para atender uma senhora idosa, bastante doente. Enquanto me ofereciam um café e tirava essa foto, após a Unção dos Enfermos, a velhinha se levantou, depois de dias de rede (não usam camas lá) e foi preparar o almoço!”

Na Mensagem para o Dia Mundial das Missões, o Papa Francisco convida-nos a refletir sobre a missão no coração da fé crista e reforça que a Igreja é, por sua natureza, missionária. Por isso, somos convidados a interrogar-nos sobre algumas questões que tocam a própria identidade cristã e as nossas responsabilidades como católicos.

Em entrevista com o Pe. Adriano Ferreira Rodrigues, administrador paroquial da Paróquia São João Batista (Itu/SP), reflitamos sobre nossa missão e como vivê-la de forma autêntica como cristãos católicos.

Católico Digital: O que é ser missionário e quem pode ser missionário?

Pe. Adriano: Ser missionário é simplesmente seguir Jesus Cristo. Ele foi O missionário do Pai. Ele que desceu dos céus e se encarnou, Ele que nascendo no meio de nós caminhava pelas aldeias e vilas e ia anunciando o amor de Deus. Ser missionário é realmente ter essa disposição de poder sair de si. Não é fácil ser missionário, mas para quem é cristão é necessário. É a decisão de partir, de sair da zona de conforto, do comodismo, de se arriscar um pouco em Deus, de experimentar Deus. Deus gosta desses desafios. Ele escolhe os pequenos, os pobres, os fracos e aqueles que se decidem a sair com Ele. Todos nós precisamos partir e a Igreja sempre lembra aos cristãos que aqui não é o nosso lugar. Nós estamos em procissão para o Céu. Então é preciso experimentar esse ser missionário, esse sair de si. Ver como Deus pode nos levar além dos nossos limites, das nossas fraquezas, e pode fazer coisas maravilhosas. Todo aquele que experimentou esse amor de Deus pode ser missionário, porque não é uma decisão pessoal, não pode ser simplesmente uma iniciativa nossa, nós recebemos essa iniciativa de Deus. Quem recebeu tanto, quem já viu tanto, precisa também fazer essa experiência de levar aos irmãos, de poder espalhar essas sementes, guardá-las pra si é muito egoísmo, é muito pobre. Todos podem ser missionários. Não é preciso fazer muita coisa, ter muita coisa ou ir a um lugar ou a outro, mas abrir-se ao chamado de Deus e Deus mostrará a cada um que pode ser missionário de uma maneira, cada um deve ser missionário de um modo.

Católico Digital: Por que ser missionário?

Pe. Adriano: Porque Deus ama a gente e ninguém vive o amor sozinho. É preciso ir ao encontro do outro. Jesus disse “amai ao próximo como a ti mesmo. Amai-vos uns aos outros como Eu vos amei”. A nossa religião não é uma religião individualista ou egoísta. Ninguém pode dizer que é católico sozinho. A gente precisa experimentar o amor, dando e recebendo. Uma das coisas que infelizmente as pessoas tem um pouco de dificuldade de entender é que amor é algo que não é só a gente que vai oferecer, ser missionário não é só dar, a gente precisa sair de si para poder crescer, aprender, para ser mais, para ir além. Jesus quando dá aquele mandato missionário aos apóstolos – “Ide por todo o mundo, a todos anunciai o Evangelho” – Ele disse: vou mandar vocês aonde Eu já vou estar. Vocês vão chegar ali e ali me encontrarão. Então é preciso ver o tamanho de Deus. Às vezes a gente experimenta Deus de uma maneira muito fraquinha, muito pobrezinha – Deus me ajudou nisso, Deus me ajudou naquilo – quando Deus pode salvar as nossas vidas, Ele pode dar sentido a nossa alma, pode dar realmente a plenitude da alegria, mas para isso é preciso abrir-se, é preciso arriscar-se. Por isso, é preciso ser missionário para ver o que Deus pode fazer, não apenas aquilo que eu quero, mas aquilo que Ele já tem preparado pra mim e pra outros.

Católico Digital: Como o católico pode evangelizar? Como pode ser missionário? Por onde começar?

Pe. Adriano: Não é algo difícil. A primeira coisa é sentir-se chamado por Deus, escutar a voz de Deus. Ver a necessidade que o mundo tem, as situações que levam tantos a se fechar, a ficar tristes, deprimidos, a desanimar, são um desafio, um convite, um chamado de Deus a começar algo novo. É como começar a descobrir um amor. Primeiro você sonha, só que não pode ser simplesmente uma fantasia. É preciso ter realmente um desejo, uma vontade e transformar isso em oração, em um diálogo com Deus. Ele fala conosco. Para que então você possa saber por onde começar, de que maneira. Deus se revela pessoalmente para nós, Ele não nos trata coletivamente. Ele dá dons a cada pessoa. Cada um pode ser missionário de uma maneira diferente. Quem está em vida escolar, aqui mesmo no nosso país, na nossa cidade, precisa ser missionário. Nós precisamos de gente que evangelize, que anuncie o amor de Deus em um mundo onde parece que os valores são todos trocados. Mesmo no trabalho, onde tantos estão desempregados, nos diversos ambientes, no ponto de ônibus, na porta do hospital, na própria família. É preciso começar de maneira simples e a partir desse início Deus vai mostrando os caminhos e isso, é claro, precisa ser transformado em atitudes ainda maiores, mais organizadas. Isso é o que Papa Francisco tem sempre falado e que é o tema do mês missionário da campanha no Brasil: “A Alegria do Evangelho para uma Igreja em saída”. Essa saída não é só para outro país ou região, é para as periferias existenciais, o mundo das universidades, das baladas. Cada um pode e precisa sim na sua comunidade e na sua família ver de que maneira isso pode se transformar em um ação mais concreta, até para motivar outros que as vezes podem se sentir distantes, mas onde dois ou mais estão reunidos, Jesus estará ali. Começamos pequenos, mas Deus faz coisas grandiosas.

Católico Digital: Padre Adriano, em janeiro de 2018, o senhor será enviado em missão para Pemba, em Moçambique, na África, pelo Regional Sul 1 da CNBB. Essa decisão partiu do senhor? O que o motivou? Quais suas expectativas? 

Pe. Adriano: Eu tenho vivido neste contexto de missão já desde a minha infância na Igreja. Eu sempre participei junto com os meus pais do Caminho Neocatecumenal, um serviço da Igreja, um itinerário de formação cristã, que me ajudou bastante no meu discernimento vocacional e em todo o meu crescimento cristão e eles incentivam e valorizam muito a questão missionária. Eles tem famílias, sacerdotes, religiosos em todo o mundo, em contextos bastante difíceis. Quando me tornei padre, escolhi ser diocesano, mas nunca deixei de caminhar em uma comunidade. Pude, aqui na Diocese de Jundiaí mesmo, fazer uma experiência missionária no Projeto Igrejas-Irmãs. Em 2009, fui enviado para a Amazônia. Fiquei durante cinco anos no Pará, na Diocese de Marabá. Uma região bastante simples, com um contexto bastante diferente da Diocese de Jundiaí. Ali haviam garimpeiros, sem-terra, indígenas, migrantes de outros estados, e ali pude encontrar muitos sacerdotes estrangeiros, que trabalharam na África, na Ásia, em outros contextos, e nesse convívio com eles eu acabei sendo motivado a ir um pouco além. Eu estava na Amazônia, naquele “fim de mundo” que eu imaginava, para poder ajudar um pouco aquele povo tão sofrido e aqueles padres que trabalharam anos e anos na África, em situações tão mais difíceis, me falavam: a gente veio aqui para descansar um pouco. Então, pensando um pouco em tudo aquilo que eu tinha recebido de Deus, inclusive foi por iniciativa D’Ele, e eu conhecia, mas nunca tinha lido com detalhes uma carta chamada “Fidei Donum”, em uma encíclica do Papa Pio XII, que nos ajudou demais, pensei, a gente que recebeu o dom da fé e tem tantos que estão precisando deste dom da fé. E quando pude partilhar isso com Dom Vicente Costa, retornando daquela missão à Jundiaí, ele também aceitou muito bem essa notícia, esse ardor meu, esse chamado de Deus e me ajudou agora a poder chegar a esse ponto de poder dizer que é hora de partir, é hora de ir para águas mais profundas. Quando me dispus a partir da Diocese de Jundiaí para a missão “Ad gentes”, ou seja, aos povos estrangeiros, eu não sabia para onde iria e de que maneira iria. Mas, a providência de Deus cuidou para que aparecesse esse projeto missionário Sul 1 da Diocese de Pemba, que fica no norte do Moçambique, na província de Cabo Delgado, onde temos um bispo brasileiro, que era da Diocese de Osasco e ele fez esse apelo aos sacerdotes e a todos os bispos do nosso estado e ali ele pode realmente cativar o coração desse “padrezinho” aqui. Ele falava das situações de paróquias gigantescas, de muitas comunidades paroquiais precaríssimas em aldeias, em lugares distantes, e o trabalho do sacerdote diocesano não é outro, mesmo na missão, é justamente o cuidado pastoral, a questão dos sacramentos, da formação humana, dos desafios sociais que ali são um pouco diferentes. Então, eu quero crescer um pouco mais com aquele povo. Eu pude aprender bastante no norte do país e agora vamos ver no norte do Moçambique o que me espera. Tem a questão do idioma, que será um desafio, também a questão das outras religiões, pois temos bem presente ali o Islamismo e outras religiões animistas. Então, eu estou bastante empolgado, bastante ansioso por poder conhecer, conviver e ver como poder servir. Eu sei que Jesus Cristo já me precedeu ali. Tem ali comunidades muito vivas, apesar de pequenas, pobres e distantes. E o que falta realmente, infelizmente, é a presença de outros irmãos para animar essas comunidades. Então, eu espero poder com eles caminhar, com eles crescer, encontrar ali o que Deus pode fazer realmente de milagre na vida das pessoas. Eu já tenho visto tanto, mas acho que ali vai ser ainda mais bonito de se ver.

Católico Digital: O Papa Francisco diz que “os jovens são a esperança da missão e que a pessoa de Jesus e a Boa Nova proclamada por Ele continuam a fascinar muitos jovens”. Inclusive, a próxima Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos em 2018 terá como tema “Os jovens, a fé e o discernimento vocacional”. Qual mensagem o senhor deixaria aos jovens para que sejam católicos autênticos e missionários?

Pe. Adriano: É muito bonito na vida da juventude, de todos os tempos, ver que geralmente eles não sonham pequeno, mesmo nesses tempos tão difíceis, eles conseguem ir mais longe, tem um caráter visionário de não buscar coisas pequenas. Então, que possam cada vez mais não se fechar também a esse ambiente da fé. A não se limitarem apenas ao mundo digital, as redes sociais, ao mundo do trabalho, ao círculo de amizade, mas também escutarem um pouco mais a voz de Deus e saberem parar e pensar um pouco nas coisas do Senhor. A Igreja tem caminhado de maneira muito próxima, hoje em dia, da juventude e tem muito a fazer, mais do que depender dos jovens, ela tem muito a servir aos jovens. Então, que eles possam também aproveitar esse tempo de graça que o Santo Padre nos permite de refletir sobre a juventude, o dom da fé, e especialmente essa questão do discernimento vocacional. Nós temos visto tantas famílias, infelizmente, mal organizadas, mal constituídas. Nós temos visto tantos casamentos decaindo e tantos jovens que, infelizmente, tem se perdido no mundo dos prazeres mundanos de maneira muito triste, com sequelas terríveis. Que os jovens pensem realmente que Deus fala, que Deus chama, e quando Deus chama Ele não obriga, não compele, não força ninguém a nada. Que eles possam também ouvir essa voz de Deus, esse chamado de Deus, que é um chamado a ser feliz, um chamado a viver o amor e isso também na vida sacerdotal e na vida religiosa, não apenas. O discernimento vocacional serve também para a vida de família, para os ministérios da comunidade, para as profissões que o mundo precisa. Deus ainda quer que nós trabalhemos pela construção de uma sociedade mais justa, mais fraterna. Mas, que eles se abram de modo especial também a esse chamado. Há muito jovens, rapazes e moças, que por terem descartado esse lado da religião, da fé, por terem deixado de lado esse diálogo com Deus, às vezes estão respondendo mal a esse chamado, estão sendo infelizes porque resolveram fazer a vida do seu próprio jeito. Não sei ainda qual será o resultado desse sínodo, mas certamente, por esse tema, ajudará muitos jovens a pensarem um pouco mais em servir a Deus, na maneira como for preciso, na maneira como o nosso mundo precisa e como Deus lhes inspira. Deus dá muitas capacidades. Eu confio muito que a nossa juventude vai fazer muita diferença daqui pra frente, onde às vezes os mais velhos estão cansados, onde os muito pequenos parecem que não tem uma mão que os guie, alguém que os conduza, a juventude pode fazer essa grande mudança, escutando esse chamado de Deus e respondendo à Ele com fé.

Comentários

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2 Comentários para “Como o católico pode ser missionário?”

  1. vicente donizete estanini disse:

    gostaria de receber informações sobre ser missionário

    tenho 54 anos e gostaria ter mais conhecimento

  2. Olá, Vicente! Por gentileza, envie um e-mail para falecom@catolicodigital.com.br ou preencha o formulário (http://catolicodigital.com.br/fale-conosco) para que possamos orientá-lo melhor. Obrigado e Deus o abençoe! Equipe Católico Digital

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